CLT ou PJ: quanto o PJ precisa faturar?

Por Bruno Tonetto · Revisado em · Como verificamos

Comparar salário CLT com nota fiscal PJ é comparar coisas diferentes: um traz 13º, férias + 1/3 e FGTS embutidos; a outra ainda vai pagar Simples, INSS, contador — e as próprias férias. A comparação certa é pacote anual × pacote anual. Descubra quanto o PJ precisa faturar para empatar com seu CLT, ou compare duas propostas concretas.

O que o CLT ganha "invisível"

Um CLT de R$ 6.000 não recebe 12 × R$ 6.000. Recebe 13,33 salários por ano (12 + 13º + 1/3 de férias), mais 8% de FGTS sobre tudo isso — R$ 6.400/ano de remuneração diferida — e benefícios. Depois de INSS e IR (já com a isenção de 2026), o pacote soma R$ 72.121 líquidos por ano. É esse número, não o salário, que o faturamento PJ precisa cobrir.

O que o PJ paga "invisível"

Do faturamento saem: o DAS do Simples (6% na 1ª faixa do Anexo III — se o fator R cooperar), o INSS de 11% sobre o pró-labore, IR sobre o pró-labore, o contador (obrigatório na prática) e o custo escondido que quase todo mundo esquece: férias são mês sem faturar. A calculadora já desconta tudo — inclusive os 30 dias de descanso.

A armadilha do fator R

Pró-labore de salário mínimo parece esperteza ("pago menos INSS"), mas derruba o fator R para baixo de 28% e joga a empresa no Anexo V: a alíquota inicial salta de 6% para 15,5%. Num PJ de R$ 10 mil/mês, o DAS vai de R$ 6.600 para R$ 17.050 por ano — economia de INSS que custa mais de R$ 8 mil. Por isso a calculadora usa, por padrão, pró-labore de 28% do faturamento.

O risco tem preço

Empatar não basta. O CLT demite com multa de 40% + seguro-desemprego; o PJ perde o cliente com um e-mail. O excedente sobre o ponto de empate é o seu prêmio de risco — e ele deveria financiar uma reserva maior e uma previdência por conta própria. Proposta PJ no "mesmo valor" do CLT é corte de salário com passos extras.

Dúvidas comuns

CLT de R$ 6.000 equivale a PJ faturando quanto?

Sem benefícios, cerca de R$ 7,5 mil por mês — multiplicador de ~1,26. Com benefícios típicos (VR + plano de saúde), a régua sobe. O número exato depende do contador, do pró-labore e das suas férias: use a calculadora com seus valores.

De onde vem a "regra do 1,3×"?

Do que o CLT recebe por fora do salário: 13º, férias + 1/3 (13,33 salários/ano no total), FGTS de 8% sobre tudo isso, e do que o PJ paga por dentro: Simples, INSS do pró-labore, contador e as próprias férias (mês sem faturar). Somando os dois lados, o empate costuma cair entre 1,2× e 1,4× — abaixo de 1,2×, desconfie da proposta.

O que é o fator R e por que importa tanto?

É a razão entre a folha (pró-labore) e a receita: ≥ 28% → Anexo III do Simples (a partir de 6%); abaixo → Anexo V (a partir de 15,5%). Pagar um pró-labore de 28% do faturamento custa mais INSS, mas derruba o imposto da empresa — para um PJ de R$ 10 mil/mês, a diferença passa de R$ 8 mil por ano. É a decisão tributária mais importante do PJ pequeno, e a calculadora otimiza sozinha.

O que o dinheiro não mostra nessa comparação?

O risco. O CLT tem demissão com multa de 40% + seguro-desemprego, estabilidades, férias remuneradas garantidas e INSS sobre o salário cheio (aposentadoria maior). O PJ tem flexibilidade e teto maior, mas doença, entressafra de clientes e aposentadoria são problema dele. O excedente sobre o ponto de empate é o preço desse risco.

E o MEI, não é mais barato que o Simples?

É (imposto fixo mensal), mas o teto é R$ 81 mil/ano (~R$ 6.750/mês) e várias atividades intelectuais não podem ser MEI. Acima disso, a porta padrão é o Simples com fator R, que é o que a calculadora modela. Empréstimos e crédito para MEI têm página própria.

"Pejotização" é legal?

Contratar PJ para trabalho com subordinação, horário e pessoalidade de empregado é fraude trabalhista (CLT art. 9º) — a Justiça pode reconhecer o vínculo e mandar pagar tudo retroativo. PJ de verdade tem autonomia, múltiplos clientes possíveis e risco próprio. Se a "proposta PJ" é o mesmo emprego com outro contrato, o multiplicador precisa compensar também esse risco jurídico que você assume.

Cenário-piso educativo: Simples Nacional com fator R (Anexos III/V, LC 123/2006), sem ISS fora do DAS, lucro presumido nem particularidades municipais; distribuição de lucros isenta pressupõe contabilidade em dia. Números tributários mudam com o faturamento acumulado (RBT12) — para decidir de verdade, valide com um contador.